Risco humano em serviços financeiros: onde o dinheiro se move
No setor financeiro, um colaborador convencido vira dinheiro na hora. O que a Resolução CMN 4.893 pede sobre capacitação e como montar um programa que se sustente.

Em um banco, o dinheiro não se move porque um sistema decidiu movê-lo. Ele se move porque uma pessoa com as permissões certas acredita que uma instrução é verdadeira. Esse fato explica boa parte do cenário de ameaças nos serviços financeiros. O IC3 do FBI contabilizou US$ 55,49 bilhões em perdas expostas por comprometimento de e-mail corporativo em uma década. Nada disso exigiu quebrar criptografia. Tudo exigiu convencer uma pessoa.
O regulador brasileiro também olha para isso. A Resolução CMN nº 4.893/2021, que trata da política de segurança cibernética das instituições autorizadas a funcionar pelo Banco Central, inclui a capacitação de pessoal entre os mecanismos que a política deve prever, e a Resolução BCB nº 85/2021 faz o mesmo para as instituições de pagamento. Este guia explica por que o setor financeiro tem um perfil de risco humano próprio, o que essas normas pedem em relação aos colaboradores e como montar um programa que atenda à auditoria e, ao mesmo tempo, fortaleça as pessoas de forma mensurável.
Por que o setor financeiro é o caminho mais curto entre a persuasão e o lucro
Todos os setores sofrem com phishing. O setor financeiro sofre com phishing que já vem com a saída de caixa embutida. O Verizon DBIR 2026 atribui ao elemento humano 62% das violações, mas na maioria dos setores o atacante que compromete um colaborador ainda precisa monetizar o acesso: dados para vender, um resgate para negociar. Em um banco, em uma seguradora ou na tesouraria de uma empresa, a pessoa manipulada é a etapa que transforma o ataque em dinheiro. Aprovar a transferência, trocar a conta do fornecedor, liberar o lote de pagamentos: ataque e saque são a mesma ação.
Os números refletem essa concentração de valor:
| Sinal | Número | Fonte |
|---|---|---|
| Custo médio de uma violação no setor financeiro | US$ 6,29 milhões, atrás apenas da saúde | IBM Cost of a Data Breach 2026 |
| Perdas expostas por BEC, 2013–2023 | US$ 55,49 bilhões | FBI IC3, PSA240911 |
| Valor médio pedido em uma transferência BEC | US$ 42.663 | APWG, primeiro trimestre de 2026 |
| Crescimento do phishing por voz | +442% entre o primeiro e o segundo semestre de 2024 | CrowdStrike Global Threat Report |
E os pretextos estão melhorando. Equipes financeiras já enfrentam ataques de voz e vídeo com deepfake montados em torno de operações em andamento: a tentativa contra a Ferrari só falhou porque um executivo fez uma pergunta de verificação que a voz clonada não soube responder. A FinCEN, nos Estados Unidos, considerou a tendência grave o bastante para publicar um alerta específico sobre fraudes com deepfake contra instituições financeiras. A ironia é que o setor financeiro é, por quase qualquer medida técnica, maduro: a avaliação NIS360 da ENISA coloca os bancos entre os setores com maior maturidade em segurança cibernética na Europa. Os atacantes leem as mesmas avaliações. Quando o perímetro é duro, eles ligam para a mesa de tesouraria.
Nos serviços financeiros, a camada humana não fica ao lado das joias da coroa. Ela tem as chaves e executa a operação. Por isso a auditoria olha para os seus colaboradores, não só para os seus firewalls.
O que as normas do Banco Central pedem em relação aos colaboradores
A Resolução CMN nº 4.893/2021 é conhecida principalmente pelas regras sobre a política de segurança cibernética e sobre a contratação de serviços de processamento, armazenamento de dados e computação em nuvem. Mas o art. 3º, VI, traz o trecho que afeta o programa de conscientização: entre os conteúdos mínimos da política estão os mecanismos para disseminar a cultura de segurança cibernética na instituição, incluindo (a) a implementação de programas de capacitação e de avaliação periódica de pessoal, (b) a prestação de informações a clientes e usuários sobre precauções no uso de produtos e serviços financeiros e (c) o comprometimento da alta administração com a melhoria contínua dos procedimentos de segurança cibernética. A resolução foi alterada pela Resolução CMN nº 5.274/2025; trabalhe sempre sobre o texto consolidado publicado pelo Banco Central. A Resolução BCB nº 85/2021 repete a previsão do inciso VI para as instituições de pagamento.
Três pontos tornam esse trecho mais exigente do que parece em uma primeira leitura:
- Capacitação e avaliação andam juntas. O texto não fala só em oferecer treinamento: fala em programas de capacitação e de avaliação periódica de pessoal. Uma lista de presença mostra a primeira parte; só a medição de comportamento mostra a segunda.
- É parte da cultura, não um evento. A capacitação aparece como mecanismo de disseminação de cultura, ao lado da informação aos clientes e do compromisso da alta administração. Um curso anual isolado dificilmente sustenta essa leitura.
- A alta administração está no texto. O compromisso da alta administração com a melhoria contínua coloca a diretoria dentro do programa, não acima dele.
O que a norma não faz é definir formato, conteúdo ou periodicidade. Essa escolha é da instituição, e é justamente por isso que ela precisa ser defensável. Depois de um incidente, "fizemos o treinamento anual" é uma evidência fraca se o operador de pagamentos enganado viu pela última vez um curso genérico de e-learning onze meses antes e nunca tinha ensaiado um pedido de troca de conta bancária de fornecedor. Para grupos com entidades financeiras na União Europeia, o art. 13(6) do DORA pode se aplicar a essas entidades; na prática, o caminho mais simples é um único programa construído pelo padrão mais exigente.
O roteiro de ataque próprio do setor financeiro
Conteúdo genérico de conscientização não cobre os cenários que de fato esvaziam contas. Um programa para o setor financeiro deve ser construído em torno dos pretextos usados contra quem movimenta dinheiro:
- Troca de conta bancária de fornecedor. A variante de BEC mais lucrativa: um fornecedor "atualiza" seus dados bancários pouco antes de um pagamento grande já programado. A defesa é de procedimento: confirmar ligando para um número que já está no cadastro, nunca para o que aparece no pedido. Nosso guia de defesa contra BEC percorre todos os controles.
- Pedidos de pagamento de executivos. Urgentes, confidenciais, com prazo apertado e, cada vez mais, com voz ou vídeo clonados em uma chamada ao vivo em vez de e-mail.
- Pretextos de pagamento autorizado. O golpe contra pessoas físicas tem um gêmeo corporativo: um colaborador ou um cliente convencido a iniciar ele mesmo a transferência, o que elimina boa parte das opções técnicas de recuperação (veja fraude de pagamento autorizado). Com transferências instantâneas, a janela para perceber o golpe fica ainda menor.
- Engenharia social contra o service desk e a redefinição de MFA. O caminho usado contra a MGM e a Clorox também funciona em um banco: ligar para a TI, dizer que é um operador bloqueado e herdar o acesso.
- Uso da sua marca contra os seus clientes. Seus clientes são atacados com a sua marca, e é por isso que a norma inclui a informação a clientes e usuários entre os mecanismos de cultura de segurança.
Como montar um programa de risco humano pronto para a auditoria
1. Classifique os colaboradores pela capacidade de pagamento. Identifique quem pode mover, aprovar ou desviar dinheiro (tesouraria, contas a pagar, folha de pagamento, gerentes de relacionamento, executivos e seus assistentes) e trate esse grupo como de alto risco, com cenários mais difíceis e cadência mais intensa. Um Human Risk Score por função e equipe transforma esse exercício de organograma em uma linha de base mensurável que a auditoria pode revisar.
2. Ensaie os cenários de dinheiro, não só o e-mail. Com o phishing por voz em alta e as iscas por QR code e SMS já comuns, um teste só por e-mail deixa de fora os canais pelos quais o setor financeiro é atacado. Execute simulações multicanal que incluam troca de conta de fornecedor, pedidos urgentes de executivos e ligações para redefinir MFA. O reflexo a construir é "confirmar por outro canal antes que o valor saia".
3. Proteja o ato de confirmar. O que salvou a Ferrari foi cultural, não técnico: um colaborador se sentiu seguro para questionar o seu "CEO". Publique o protocolo de confirmação, faça a diretoria dizer com todas as letras que nenhum pedido legítimo vai penalizar uma ligação de checagem e teste se o protocolo resiste a um pretexto convincente.
4. Coloque a diretoria dentro do programa. A norma fala no compromisso da alta administração, e a auditoria vai pedir primeiro os registros dela. Sessões para o conselho e a diretoria também servem como endosso visível de todo o resto.
5. Gere evidência de forma contínua. Cadência, conteúdo ajustado ao risco de cada função, resultados das simulações, linhas de tendência. A avaliação periódica de pessoal prevista na norma só existe se houver o que avaliar: a documentação não é burocracia, é a entrega.
O setor financeiro já trabalha com riscos medidos: risco de crédito, de mercado e operacional têm responsáveis, modelos e linhas de tendência. A gestão de risco humano estende essa disciplina à camada onde hoje começa a maioria dos ataques: as pessoas que movimentam o dinheiro. A norma colocou a capacitação na política. Fazer com que ela funcione (mensurável, por função, ensaiada contra os pretextos que de fato esvaziam contas) é o que protege o balanço.
Perguntas frequentes
A Resolução CMN 4.893 exige treinamento de conscientização em segurança?
Ela prevê capacitação de forma explícita. O art. 3º, VI, a, da Resolução CMN nº 4.893/2021 determina que a política de segurança cibernética contemple mecanismos para disseminar a cultura de segurança cibernética na instituição, incluindo a implementação de programas de capacitação e de avaliação periódica de pessoal. A resolução foi alterada pela Resolução CMN nº 5.274/2025; confira o texto consolidado com o seu jurídico. A norma não fixa formato nem periodicidade do treinamento.
E as instituições de pagamento?
A Resolução BCB nº 85/2021 traz a mesma previsão para instituições de pagamento, também no art. 3º, VI, a: programas de capacitação e de avaliação periódica de pessoal como parte dos mecanismos de cultura de segurança cibernética. Na prática, bancos, financeiras e fintechs reguladas pelo Banco Central lidam com a mesma pergunta: como demonstrar que a capacitação existe e que é avaliada.
Por que as equipes financeiras são mais atacadas que outras áreas?
Porque estão no fim do caminho mais curto entre a persuasão e o lucro. Um engenheiro comprometido dá ao atacante um acesso que ele ainda precisa monetizar; um operador de pagamentos ou um analista de tesouraria convencido executa ele mesmo essa etapa. Por isso dominam os pretextos financeiros: boletos e faturas falsas, troca de conta bancária de fornecedor, pedidos de pagamento de executivos e ligações com deepfake ajustadas ao prazo de uma operação. O FBI contabiliza mais de US$ 55 bilhões em perdas expostas só por comprometimento de e-mail corporativo entre 2013 e 2023.
Como um banco ou uma seguradora deve medir se o programa de risco humano funciona?
Medindo comportamento, não presença. Acompanhe as taxas de falha e de reporte nas simulações por função e por canal (e-mail, SMS, voz, QR code), com cenários mais difíceis para quem aprova pagamentos, e verifique se os protocolos de confirmação são de fato acionados quando chega um pedido de pagamento simulado por outro canal. Uma pontuação de risco humano por equipe dá à auditoria a rastreabilidade de uma avaliação periódica e ao CISO uma linha de tendência que nenhum certificado de conclusão oferece.
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